REBOUÇAS E TAUNAY: RELATOS DE DIFERENTES
PONTOS DA GUERRA DO PARAGUAI
Vanessa Pedro - UFSC
Alfredo é branco, descendente de franceses, aprecia as ciências naturais e gosta de arte. André é negro, defensor da reforma agrária e do desenvolvimento das empresas nacionais. O avô de Alfredo era pintor e veio da França para o Brasil junto com outros artistas trazidos pelo governo de D. João VI para fundar, em 1816, a Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro. O pai se tornou preceptor de D. Pedro II. Já André não pôde contar com esse berço abastado. O jovem sonha em ganhar uma bolsa de estudos para se aperfeiçoar na Europa, mas tudo o que consegue, com a ajudar de amigos da família, é passar alguns meses na Inglaterra, para onde vai com a intenção de visitar a Exposição Internacional de Londres. Alfredo e André têm trajetórias de vida e experiências bastante distintas. Mas apesar disso é possível encontrar muitos momentos e idéias em comum entre eles.
André Rebouças e Alfredo d’Escragnolle Taunay viveram no Brasil do final do século passado e eram contrários à escravidão. Alinhavam-se, junto com Joaquim Nabuco, ao grupo reformista que defendia, conforme Maria Alice de Carvalho, “uma modernização econômica e institucional do país sem rupturas revolucionárias, incorporando as grandes massas ao mundo dos direitos e das liberdades”[1].Isso significava também a defesa e a manutenção da monarquia no país. A família real apoiava os reformistas, contando com a possibilidade de um Terceiro Reinado de bases sociais mais amplas e sob o comando da Princesa Isabel[2].Taunay e Rebouças viviam numa época de efervescência intelectual e política, onde muitos como eles buscavam o fim de uma estrutura nefasta, a escravidão, e a construção de um novo projeto nacional liderado pela monarquia. Apesar dessa confluência de idéias, cada um deles acreditava em projetos diferentes de reformas.
Taunay defendia a implantação do casamento civil e a imigração de mão-de-obra européia. Mas partilhava de idéias das teorias raciais do final do século 19, sendo contrário à entrada de asiáticos no Brasil. Taunay entrou para a vida política em 1872, quando foi eleito deputado por Goiás. Depois de quatro anos foi nomeado presidente da província de Santa Catarina, sendo deputado e depois senador pelo mesmo estado. Nesse período recebeu o título de visconde. Com a Proclamação da República, permaneceu ao lado de D. Pedro II e largou a vida política.
Para Rebouças, as diferenças entre ele e seus dois amigos não representavam um entrave, mas um somatório de idéias que resultariam num ponto de equilíbrio necessário para reformar o país[3].A expectativa de Rebouças era a convergência das idéias dos três intelectuais e, sob o comando do Imperador, construção de um projeto para o país. Rebouças se aproximava da corrente mais crítica dos reformadores, que defendia uma monarquia popular e democrática. Seguindo esse ponto de vista, defendia que o Império apostasse na pequena propriedade como parte de um programa agrário[4].As idéias de Rebouças foram influenciadas pelo modelo político dos Estados Unidos. Viajou pra lá em 1873 e se impressionou com as fábricas, os portos, as estradas de ferro, as siderurgias, os campos de petróleo. Maria Alice de Carvalho comenta: “Era o progresso material que tanto desejava para o Brasil, apesar de ter sofrido diversas manifestações de racismo desde a chegada a Nova York, na severa revista da alfândega, até não ter nenhum hotel que o aceitasse como hóspede”[5].Mas Rebouças se desiludiu com o Brasil depois da Proclamação da República e quando percebeu que a Abolição da escravidão havia sido superficial. Sua falta de perspectiva para o país o fez optar pelo exílio voluntário na Ilha da Madeira. Lá, em 9 de maio de 1898, André Rebouças saltou de um penhasco para a morte. Numa das cartas que escreveu do exílio, dizia que considerava o Brasil uma nação do passado, como a Grécia antiga.
Taunay e Rebouças não estiveram em eventos em comum apenas nos idos da Proclamação da República ou da Abolição. Suas histórias se cruzaram, mesmo que não no mesmo espaço, muitos anos antes. Os dois participaram da Guerra do Paraguai. Ambos fizeram parte do conflito como membros da Comissão de Engenheiros e tiveram a vontade de registrar os fatos e as suas impressões desse conflito. André Rebouças e Alfredo Taunay relataram combates, vitórias, derrotas, mortes, cenas de covardia, de solidariedade, de medo. Através deles é possível chegar mais perto daqueles anos em que os países que hoje formam o Mercosul lutavam entre si como placas tectônicas para consolidar esses estados nacionais. Não quer dizer que esse relatos sejam a expressão da verdade e possam “revelar o que realmente aconteceu”. Eles servem especialmente como material para avaliar a maneira como as pessoas daquele tempo se relacionavam com a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai.
O ponto mais interessante em fazer uma comparação entre esses dois relatos, de Taunay e de Rebouças, é poder contar com registros que retratam lugares distintos do mesmo conflito. Rebouças atuou no sul do Brasil e no centro da guerra. Presenciou disputas políticas entre chefes aliados, testemunhou e participou de batalhas por rios e ilhas fluviais, esteve em território paraguaio. Taunay fez parte da coluna que pretendia atacar o Paraguai pelo norte. Acabou por escrever a história de uma retirada. É possível dizer que Rebouças participou do centro da guerra e Taunay atuou na periferia. Mas ambos estiveram em grandes palcos. O 2º Tenente Rebouças participou de palcos já considerados principais na época da guerra, para onde iam inclusive os presidentes dos países aliados e muitas das figuras que são lembradas até hoje por protagonizarem outros episódios da história do país, como Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Rebouças faz elogios a ambos em seu Diário. Deodoro mais tarde participa do golpe militar que proclama a República e Floriano autoriza o massacre de federalistas na fortaleza de Anhatomirim, em Desterro-Florianópolis. Já Taunay fez parte de uma peça considerada secundária na época, mas que se tornou célebre no final. Muito mais por ter sido trágica do que por ser considerada estratégica para o conflito. A retirada do exército brasileiro do norte do Paraguai, um episódio mais conhecido como retirada da Laguna, nome de uma fazenda localizada na fronteira entre os dois países, foi um detalhe periférico que se tornou central para contar a história dessa guerra graças ao seu desfecho.
A Retirada da Laguna[6],livro escrito por Alfredo Taunay, conta a história de um grupo de três mil homens do exército brasileiro em missão na região do Mato Grosso durante a Guerra do Paraguai. A expedição durou dois anos, de 1865 a 1867. Os soldados do Imperador, que haviam recebido a missão de expulsar os paraguaios de terras brasileiras e invadir o território inimigo, acabaram tendo que desistir de seu propósito e retornar ao Brasil. Taunay aponta como causas da retirada a fome e doenças como o cólera. Durante todo o tempo o escritor faz questão de dizer que não foi o exército paraguaio o responsável por essa derrota. Ele culpa ainda mais os próprios organizadores aliados da guerra. Essa coluna deveria ter sido apenas um exército de vanguarda. Três mil homens atacariam primeiro e depois receberiam reforço. Mas os planos mudaram e as atenções ficaram voltadas para os ataques pelo sul, através do acesso ao Rio Paraguai, justamente onde atuou André Rebouças. É possível ter idéia do motivo da falta de atenção à expedição do norte através de seu relato. Rebouças ressalta a desorganização dos exércitos aliados e a falta de cavalos, de armamentos de qualidade e muitas vezes de comida. Taunay faz críticas à mudança de estratégia no texto mesmo de A Retirada da Laguna: “O plano primitivo fora praticamente abandonado, ou pelo menos, outra função não teria senão submeter às mais terríveis provações um pequeno corpo de exército quase perdido nos vastos espaços desertos do Brasil”[7].
O texto de André Rebouças analisado neste artigo é um fragmento de seu Diário[8].escrito durante a guerra entre 15 de março e 23 de junho de 1866. O Diário de André Rebouças foi editado pela primeira vez apenas em 1938, por Ana Flora e Inácio José Veríssimo, mas com uma lacuna que ia justamente da metade de março a junho de 1866. O manuscrito reapareceu em 1966 na Relação de Manuscritos da Coleção J.F. de Almeida Prado, feita porRosemarie E. Horch, que havia sido adquirida pela Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros (USP). A publicação analisada neste artigo foi a primeira realizada desse material, editado apenas em 1973. Esse fragmento do Diário de Rebouças inicia nos preparativos para a invasão do Passo da Pátria, localizado em território paraguaio, e vai até o período em que o autor decide abandonar a guerra, depois de sofrer com duas enfermidades – pneumonia e varíola, e voltar ao Rio de Janeiro. Para se ter noção do momento tratado por Rebouças vale dizer que, nesse período, aliados e paraguaios têm um dos confrontos mais destacados da história da guerra, a batalha de Tuiuti, ocorrida em 24 de maio de 1866.
É importante observar a diferença de linguagem dos dois relatos de guerra. Embora ambos sejam baseados em diários do conflito com o Paraguai, em Rebouças os fatos e as análises foram relatados e editados dia por dia. Ele chega a especificar o dia do mês e o dia da semana antes de cada trecho descrito. Fazia inclusive dois diários paralelos, um pessoal e outro oficial feito a mando dos seus comandantes. Rebouças voltou para o Rio de Janeiro e suas pretensões de “correspondente de guerra” terminaram. Seus manuscritos foram editados muito tempo depois de sua morte. Taunay tinha a pretensão de ser escritor. Alfredo Taunay construiu um texto baseado em seu diário da Comissão de Engenheiros da coluna e em sua memória dos fatos, mas a estrutura foi montada de forma que se parecesse com um romance. Não há datas que iniciem os relatos do dia. Ele constrói um texto único que conta a chegada a Mato Grosso, a ida ao Paraguai e o retorno ao Rio de Janeiro. O texto foi feito inclusive com a intenção de ser publicado como livro, o que aconteceu pouco tempo depois, enquanto o autor ainda vivia.
Taunay continuou sua carreira de escritor, só interrompida quando resolveu ingressar na política. Em 1872, publicou o romance Inocência, onde acreditava estar lançando as bases da autêntica literatura brasileira. Ele nutria a ambição de que duas de suas obras chegariam à posteridade, justamente A Retirada da Laguna e Inocência. Disse ao Imperador numa festa no Instituto Histórico, em outubro de 1889: “Eis as duas asas que me levarão à imortalidade”[9]. Mais especificamente sobre os episódios ocorridos no Mato Grosso, dizia que as forças do exército sofreram tanto e inutilmente e que aquelas aventuras dramáticas teriam ficado no esquecimento se ele próprio não as tivesse relatado[10].Acreditava que, embora pudesse parecer falta de modéstia, pode tê-las livrado do esquecimento para sempre. Taunay se orgulhava também em dizer que era o único escritor brasileiro de sua geração a ter tido experiências tão próximas aos índios e em falar a língua deles. Fazia até uma crítica a José Alencar, dizendo que o autor de O Guarani e Iracema escrevia sobre a natureza de dentro de seu gabinete e, por isso, escrevia mais sobre o que lia nos livros do que exatamente sobre o que havia visto com seus olhos.
Apesar de Taunay afirmar que em seus livros tinha a intenção de retratar “a verdade”, escreveu paralelamente às suas demais obras um livro de Memórias[11],que só pôde ser publicado a pedido do autor cinqüenta anos após sua morte. A produção de um livro de memórias por um lado confirma a intenção de separar “a verdade” dos acontecimentos, pretensamente já exposta nos demais livros de Taunay, daquilo que seria a opinião do autor. Mesmo que isso seja uma ilusão, à medida que a escolha dos fatos relatados, das palavras utilizadas para falar deles e a quem se dá voz num texto já são sinais de que há um olhar singular do autor sobre tudo o que viu, ouviu e sentiu. Por outro lado, a exigência de que Memórias fosse publicado apenas cinqüenta anos depois da morte do autor, o que seria por volta de 1949, deixa a entender que Taunay sabia de coisas que não poderiam ser contadas enquanto outras pessoas ainda vivessem ou estivessem ocupando determinados postos, ou mesmo, enquanto o próprio Taunay tivesse que encarar essas pessoas. Talvez tenha feito isso para preservar idéias e acontecimentos nos quais ainda acreditava. Em Memórias, Taunay trata durante várias páginas dos episódios da Guerra do Paraguai. Mas, se defendia a existência dessa guerra e a participação do Brasil no conflito, o Imperador e a sua própria carreira, como poderia fazer críticas contra o exército brasileiro ou contra seus comandantes? Então, o livro Memórias é cheio de expressões como “isto é”, “ou seja” e “na verdade”.
Em A Retirada da Laguna, Taunay quase não faz críticas aos seus superiores. As únicas citações neste sentido precisam ser lidas nas entrelinhas como, por exemplo, quando fala do comandante Carlos de Moraes Camisão. Taunay consegue atacar o comandante através de algumas insinuações sobre sua possível indecisão frente às escolhas que a coluna deveria fazer. Afirma que “aqueles que conheciam o comandante-em-chefe especulavam com secreta inquietude sobre quais seriam seus planos e qual seria sua capacidade de iniciativa”[12].Para justificar essas suspeitas, conta um episódio no qual Camisão foi acusado de comandar uma retirada precipitada da fortaleza de Corumbá, na província de Mato Grosso, ocorrida em dezembro de 1864. “Embora não tivesse sido sua a idéia desta retirada precipitada, pairava a suspeita de que não deixara de ser solidário com tal ato de fraqueza”[13].Mesmo que em nenhum momento assuma que condenava aquela retirada de Corumbá, paira essa idéia ao longo das linhas de A Retirada da Laguna. Taunay inclusive deixa claro que muitas vezes Camisão teve atitude de levar o exército em frente com a intenção de invadir o Paraguai, mesmo que no momento seguinte hesitasse em pôr em prática o que havia decidido, por causa da insegurança de ser chamado de covarde. Diz que Camisão era inflexível na idéia de invadir o Paraguai especialmente quando questionado ou contrariado por outros membros da coluna. Mas quando chegava o dia de partir e avançar, “Camisão encontrava algum pretexto para adiá-la, mesmo que tivesse que invocar razões que havia rejeitado na véspera”[14].Taunay enxergava essa atitude no comandante e acreditava que se devesse ao trauma da retirada anterior.
O interessante é que no momento seguinte, como que para não se comprometer com essa avaliação, o autor descreve Camisão como “digno e firme, caracterizando-se, em todas as questões administrativas, por uma nobre integridade”[15].Diz ainda que ninguém lhe contestava a posição de chefe, e que ele sabia mantê-la sobretudo por agir com naturalidade e cortesia. Há críticas que Taunay só faz em Memórias. Ele confessa que não considerava Manoel Pedro Drago, primeiro comandante da coluna que deveria invadir o Paraguai pelo norte, à altura do cargo que ocupava. Taunay conta que havia uma certa descrença de que a coluna pudesse cumprir a determinação da Corte. Mas acusa o comandante Drago de não se preocupar com essa discussão e de não decidir nada. Ao contrário disso, o comandante só se ocuparia com futilidades que não diriam respeito à viagem ao Mato Grosso. “Chegava a gabar-se de ter, em Campinas, cortado vestidos para senhoras se apresentarem em bailes”[16].Apenas em Memórias Taunay acusa Antônio Florêncio Pereira do Lago, Capitão do Corpo de Estado-maior da 1ª Classe, de ser quase que exclusivamente o responsável pela retirada. Diz que a teimosia de Lago provocou algumas das maiores desgraças ocorridas na expedição do Mato Grosso.
André Rebouças aparentemente é mais franco. O seu diário inteiro é permeado pelas críticas constantes que faz aos superiores. Rebouças os acusa principalmente de incompetentes por acreditar que tomam atitudes erradas, por não investirem quando então o deveriam fazer e especialmente critica a morosidade dos generais.
Às 4h da tarde, deixàvamos a margem do Paraná, ralados de desgosto pela vergonha que nos causára a leviandade dos nossos Chefes! Que horrível decepção! Desde 3 de Março que se espéra debalde pela subida da Esquadra, da qual nem um só navio tinha ainda no dia 15 sahido de Corrientes!![17].
A maior parte das críticas aos superiores acontece relacionada à ocupação da ilha de Itapiru, localizada em frente ao Forte Itapiru, que fica no Paraguai. Os planos, que recebiam a aprovação de Rebouças, eram ocupar a ilha para a partir de lá invadir o forte e o Paraguai.
Mas os generais hesitavam em realizar esse plano porque ainda discutiam se o forte Itapiru seria o ponto mais adequado para chegar ao Paraguai. Essa demora Rebouças não tolerava. Ficava mais indignado ainda quando os superiores revelavam a intenção de desistir da ocupação da ilha às vésperas dos soldados executarem os planos.
Às 6 da tarde estava no 1º Bam. D’Artilheria cuidando no melhor meio de levar as munições de calibre 12 independentemente dos carros manchegos que ião difficultar o transporte e atravancar a ilha, quando passou o General Osorio e dêo ordem para suspender todo o trabalho, mandando dizer logo por um seu Ajudante de Ordens ao Dr. Carvalho que a operação não teria logar. Foi indescritível o desgosto que em todos produzio tão absurda suspensão[18].
Ainda enquanto comenta a atitude que não queria que tivesse sido tomada, Rebouças é mais pontual em sua crítica a Osório: “Meu Deos, meu Deos, que General!!! Para o melhor e maior Exercito que se há visto na America do Sul!!”[19].Aliás Rebouças é tão contrário às atitudes do general Osório que, mesmo quando o superior fala com ele num tom mais amistoso, o engenheiro usa isso como crítica.
Às 4 horas ao voltar de determinar o ponto mais conveniente para o embarque à noite da artilheria, que tinha de ir para a Ilha encontrei o General Osorio que chamou-me, e pôs-se-me a pedir explicações sobre a operação que se ia tentar, em voz tão baixa e moderada, com um tom tão acanhado, que contrastava singularmente com a sua voz desabrida e as maneiras abrutadas que commumente affecta[20].
Ainda como outra estratégia para atacar seus comandantes, Rebouças resolve elogiar oficiais ingleses em detrimento dos brasileiros: “Visitarão ao meio dia as fortificações da Ilha os oficiais Inglezes da guarnição do Transporte “Wiper” mais curiosos ou talvez menos medrosos que os nossos Generaes”[21].
O engenheiro também faz constantes críticas à qualidade dos equipamentos utilizados pelo exército brasileiro. “Pode-se afiançar que a construção do ‘Barroso’ é fortissima mas o systema é máo: a casamata quadrada offerece grande superfície ás balas”.[22].Não apenas os navios são alvo de Rebouças. Ele também reclama da qualidade de granadas e canhões. “As nossas granadas continuarão a desgostar-nos arrebentando ao sahir da bôca de fogo por sua descuidada fundição”[23].Rebouças acusa os fornecedores de fazer propositadamente equipamentos com defeito. Segundo a organizadora desta edição do diário de Rebouças, Maria Odila Silva Dias, em uma anotação no alto da página o autor escreveu “fraudes dos fornecedores”. Rebouças atinge exatamente o ponto. Muitos fornecedores de armamentos, munições e comida enriqueceram com o prolongamento da guerra por muitos anos e por vender produtos com defeitos, o que forçava o exército a adquirir mais do que precisaria num primeiro momento.
Ao carregar-se o 2º canhão do Baluarte da esquerda fez elle explosão pela pessima qualidade da flanella, empregada nos saccos quebrando um braço ao excellente Servente Vicente Ferreira da Silva e inutilisando o dêdo pollegar direito do distincto Chefe da mesma peça Jeronymo Francisco[24].
Sem dúvida Rebouças era muito mais indignado com seus superiores do que Taunay. Mas é preciso fazer algumas considerações sobre os dois relatos. Taunay escolheu qual o tipo de texto queria que seus leitores tivessem acesso. Ele voltou de sua expedição, escreveu o livro com as informações que não o comprometeriam e o publicou. Recebeu os louros por seu trabalho. Deixou para cinqüenta anos depois de sua morte a publicação das críticas que não quis fazer em vida. É bem verdade que nem mesmo em seu livro de memórias Taunay foi tão ácido quanto Rebouças. Mesmo assim é preciso pensar que Rebouças também poderia ter passado aos seus leitores um texto com menos agressões aos seus generais se tivesse tido a intenção de publicá-lo em sua época. O que se tem de Rebouças é um diário pessoal com muitas informações que talvez só tivesse a intenção de dizer a si mesmo. Isso é só uma possibilidade, mas pode-se ter essa impressão à medida que o diário escrito por Rebouças à Comissão de Engenheiros, a mando do chefe da Comissão Dr. Carvalho, é muito mais brando. Em nenhum momento Rebouças pede a Deus que testemunhe a debilidade daqueles generais. A intenção não é dizer que um autor era mais sincero que o outro ou querer provar que o diário de Rebouças é mais “verdadeiro” que o de Taunay. Mas é importante perceber que os jogos de poder, a hierarquia e o momento histórico são fundamentais para a construção dos relatos. Através da comparação entre esses dois autores é possível conhecer um pouco mais de outros aspectos da guerra, a convivência entre os membros dos quartéis, o dito e não dito.
Maria Odila da Silva Dias acredita que as constantes críticas de André Rebouças aos superiores do exército e às estratégias de guerra dos aliados se devem ao “arroubo de seu temperamento” e ao seu “estado psicológico de revolta latente”[25].Tudo isso em decorrência de uma série de preconceitos sofridos por Rebouças pelo fato de ser negro. Há uma possibilidade de Maria Odila também demonstrar uma ponta de preconceito quando relaciona as críticas e as crenças de Rebouças a traumas causados pela discriminação. É importante colocar que o autor viveu num dos piores períodos para os negros no Brasil, quando ainda eram escravos e mais inferiorizados do que nunca. Rebouças era negro e sentiu muitas vezes o peso do preconceito, chegando a perder oportunidades como bolsas de estudos devido ao preconceito contra sua etnia. Por isso, é importante salientar que Rebouças estava do lado mais fraco da corda e acreditava que essa situação deveria mudar. Tanto que participou da luta abolicionista junto com José do Patrocínio e Joaquim Nabuco. Mas Maria Odila associa essa visão de Rebouças contra a escravidão dos negros ao que chama de “estado psicológico de revolta latente”.
Dessa maneira, Maria Odila dilui as críticas à desorganização do exército aliado, constatação também feita por outros autores como Taunay. Corre o risco ainda de desqualificar outras idéias do autor que, por exemplo, tendo visitado a Exposição Nacional de Londres, em 1862, voltou ao Brasil acreditando em uma visão de progresso e de modernidade que já era semeada em vários locais do mundo. Rebouças se espelhava também em idéias estadunidenses. Foi aos Estados Unidos em 1873 e ficou admirado com as estradas de ferro e as fábricas. É possível dizer que percebendo e vivendo a situação desigual do Brasil do final do século 19, Rebouças tenha se motivado a interferir para fazer um país diferente. Mas essa motivação não precisa ser confundida com trauma.
A autora também atribui a isso um possível desejo de Rebouças de se colocar em destaque para valorizar a si próprio.
A mentalidade de Rebouças e a rebeldia de seu temperamento refletem-se em cada página do seu Diário, permeado também da necessidade incontida que tinha de valorizar-se a si próprio, o que se manifesta, no dia-a-dia, em freqüentes repentes de auto-afirmação[26].
Rebouças realmente pontua seu Diário com uma série de passagens em que descreve sua atuação entre os chefes dos aliados e até reforça as partes em que recebe elogios dos superiores. Uma dessas passagens, inclusive usada por Maria Odila como exemplo, é quando conta a visita do ministro polipotenciário do Império ao acampamento de Tala Corá. Rebouças diz que o ministro o recebeu como a um parente e “perguntou, abraçando-me, como ia com as coisas. Já cansado, respondi-lhe, de aturar a inércia destes velhos”[27].Rebouças se referia ao General Osório e a Tamandaré. Mas não se pode dizer que essa maneira de representar a si mesmo esteja relacionado a traumas ou a preconceitos anteriores. Primeiro, André Rebouças tinha direito de se colocar como um dos membros importantes do exército porque ocupava um posto de destaque na expedição em que participava. Rebouças era 2º Tenente da Comissão de Engenheiros, patente alcançada por Taunay apenas quando retornou à Corte no final da expedição do Mato Grosso.
Além disso, Rebouças parece extremamente competente no seu trabalho de engenheiro durante a guerra. Ele fazia todos os mapas das batalhas com cálculos bastante precisos para a época, calculava as distâncias possíveis de se atingir com cada tipo de arma, entre outras atividades técnicas que dependiam de muita qualificação. Em A Retirada da Laguna, Taunay fala apenas da sua participação na construção das pontes utilizadas pelo exército quando precisava cruzar rios, mas não entra em detalhes sobre o seu trabalho. Para completar, mesmo que Rebouças busque em sua narrativa um destaque para si próprio, não age diferente de outros oficiais. Taunay também procura se destacar como membro da expedição, como criador das novas bases para a literatura brasileira e como um homem muito bonito e irresistivelmente charmoso. Apesar de toda a campanha feita por ele mesmo em cima de sua própria imagem, nenhum autor jamais relacionou seu narcisismo ou suas idéias ao fato de ser branco e descendente de franceses.
A vaidade de Taunay é um ponto que merece destaque. Taunay não entrou para o exército por vontade própria, mas para atender a um desejo dos pais e seguir uma tradição de família. Sua mãe dizia que “não há outro destino para o homem superior”[28].Uma vez membro do exército brasileiro tentou pelo menos manter o visual que já cultivava antes como civil pelas ruas do Rio de Janeiro. Taunay se negou a cortar à “escovinha” os longos e encaracolados cabelos louros, imposição feita até hoje pelo exército aos seus recrutas. Foi salvo por um brigadeiro que não viu nisso nenhum desrespeito à disciplina[29].Taunay também demonstra sua vaidade quando descreve as noites que passava com os amigos no Alcazar Lírico, uma casa de shows da capital do Império bastante badalada no final do século 19. Conta em seu livro de Memórias que em suas noitadas usava boné vermelho da arma de artilharia, “que dava notável realce à minha tez, alva e fina, e aos cabelos louros muito frisados”[30]. Completa dizendo que uma vez certa mulher gritou apontando para ele: “Olhem que bonito cardealzinho!” Taunay confessa que sua face rubrou[31].
Apesar de falar sempre de seus atributos físicos, Taunay não revelava conquistas amorosas. Durante algumas páginas de seu livro Memórias, descreve a agitação da noite carioca, fala do sucesso e da sedução das dançarinas do Alcazar Lírico, mas deixa claro que ele e seus amigos só estavam interessados no espetáculo. “Nos interessávamos pelo gozo sincero do que se passava no palco. Dávamos de barato os deslumbramentos plásticos, as pernadas, o seminu, o cancan e os trechos do realismo erótico”[32].Taunay diz que o seu grupo de amigos tinha pouco dinheiro e o gastavam em jantares depois dos shows. Mesmo mantendo uma certa distância das dançarinas, faz elogios a artistas como a “sedutora Aimée, entre outras mulheres notáveis pela beleza e talento cênico”[33].Taunay garante que não resta dúvida que o Alcazar exerceu enorme influência nos costumes da época. Mas afirma que as “senhoras de boa roda” é que não gostavam muito do lugar. Achavam que era “foco de imoralidade e das maiores torpezas”[34].“Sei de fonte bem limpa, que um marido despojou a esposa dos brilhantes para levá-los em homenagem à Aimée e alcançar-lhe os sorrisos feiticeiros”[35]. Essa má impressão sobre o Alcazar só modificou, segundo o autor, quando anunciaram espetáculos extras, destinados a famílias, que lotaram a casa de espetáculos.
Ainda falando de mulheres, mas agora retornando aos dois principais textos analisados neste artigo (A Retirada da Laguna e Diário – A Guerra do Paraguai), é interessante analisar de que maneira as mulheres estavam inseridas no espetáculo da guerra e como foram retratadas por Taunay e Rebouças. Ambos comentam a presença de mulheres na guerra, sempre acompanhando seus maridos ou amantes. Nos dois autores é possível detectar um tom de deboche em relação à presença feminina nas expedições e uma referência às mulheres como um peso ao exército. Em Memórias, Taunay afirma que elas em geral eram feias, quase repulsivas. Conta que “eram mais de duzentas dessas pobres coitadas que lá iam aos trambolhões pela imensa estrada afora, algumas carregadas de crianças, desgraçadas amásias ou legítimas esposas de soldados”[36].Rebouças chega a chamar de cômico o desembarque dessa “pobre boemia feminina”[37].Relata que as mulheres levavam algumas caturritas (periquitos) sobre os ombros e utensílios de cozinha sobre a cabeça. A partir desse comentário, sempre que o autor se refere ao transporte de mulheres nos navios dos aliados, lista junto o transporte de objetos e de animais. “O Presidente (vapor) fez a sua segunda viagem ao meio dia com cavallos, mulheres e a interminável bagagem da cavalleria”[38].
Quando falam de alguma participação de mulheres se referem às enfermeiras, que muitas vezes se ofereciam como voluntárias para acompanhar seus filhos ou companheiros. Taunay conta a atuação da preta Ana, mulher de um voluntário, durante uma batalha.
Colocada durante o combate no meio do quadrado do 17º batalhão, havia cuidado de todos os feridos levados para lá, tirando ou rasgando das próprias vestes o que faltava para os curativos e as ataduras; conduta tanto mais surpreendente e louvável quanto foi desprezível a das outras mulheres; quase todas permaneceram escondidas debaixo das carroças, onde disputavam um lugar com horrível tumulto”[39].
Rebouças também menciona uma outra enfermeira voluntária Anna Justina Ferreira Nery, quando cita o nome de seu filho, o 2º Cadete e paioleiro do Batalhão da esquerda, Pedro Antonio Nery Bahia, em seu relatório da expedição ao chefe dos engenheiros. O filho da enfermeira foi ferido em combate e apresentado como herói por Rebouças junto com outros mortos e feridos naquele dia[40].
Em nota na publicação do Diário de Rebouças, Maria Odila apresenta um autor que comentou a presença e o heroísmo de mulheres na guerra. José Rodrigues fala de atuações heroicas de algumas mulheres em Recordações da Campanha do Paraguai:
Ao ribombar do canhão, nos pontos mais perigosos das linhas de combate, elas surgiam a galope, quais amazonas, acudindo a feridos e correndo aos hospitais de sangue. Dilaceravam as roupas em ataduras e lá permaneciam até o fim da regreaga, atendendo a todos com solicitude carinhosa. Retribuíam com generosidade espontânea o favor da meia ração que recebiam...[41].
Em um momento Taunay também descreve o ato de heroísmo de uma mulher, mesmo que tenha sido praticamente atribuído ao seu instinto materno. O autor destaca uma entre as setenta e uma mulheres que ainda acompanhavam o exército durante a retirada. Ela era considerada heroína entre os soldados por ter livrado o filho de ser morto por um paraguaio. “Obstinando-se um paraguaio em arrancar-lhe o filho, apanhou de um salto um sabre abandonado no chão e matou o agressor”[42].Taunay também descreve a situação de todo o grupo das mulheres que restaram na coluna. “Traziam todas no rosto, os estigmas do sofrimento e da miséria extrema. Algumas vinham ainda carregadas de objetos provenientes do saque, como mantas, ponchos, pesados sabres paraguaios, baionetas e revólveres”[43].Mas, quase no final de A Retirada da Laguna, Taunay revela que considerava as mulheres frágeis por natureza. “Neste mesmo dia 28 morreram algumas mulheres, mais desamparadas ainda do que os outros doentes, mais desprovidas de qualquer auxílio e, por sua fraqueza natural, mais marcadas pelo selo da derradeira miséria”[44].
Os negros são mencionados de maneira diferente das mulheres nas obras dos dois autores. Suas atitudes não são acompanhadas e citadas tão de perto como acontece com as mulheres, mas por outro lado não recebem críticas ou são desqualificados pelo fato de serem negros, o que acontece com elas por serem mulheres. É preciso destacar que ambos os autores são abolicionistas e um deles é negro. É claro que isso não garantiu um destaque maior ou uma defesa dos negros em nenhuma das obras analisadas. Mas talvez as mulheres fossem menos desprestigiadas, ou melhor, observadas se algum dos autores estudados fosse uma mulher. Voltando aos negros, os chefes da expedição aliada não os encaravam com tanta igualdade quanto os dois autores, como pode ser percebido em alguns detalhes de seus relatos.
Taunay descreve como eram organizadas as tropas para os desfiles oficiais. Os batalhões mais importantes vinham primeiro. Então, os caçadores iniciavam o desfile, sendo seguidos pelo 21º batalhão de linha, pelo 20º batalhão e por uma bateria igual a primeira. Por último vinha o Batalhão dos Voluntários da Pátria, seguido das bagagens, do pessoal do comércio e das mulheres. O Batalhão de Voluntários era composto por muitos negros, que chegaram aos campos de batalha de diversas formas. Uma delas foi o decreto n.º 2.725, de 6 de novembro de 1865, que libertava os escravos que quisessem participar da guerra[45].Muitos negros encararam o conflito com o Paraguai como a única oportunidade de conseguir a liberdade. Outros foram levados à força para o conflito. Muitos eram obrigados a ir à guerra por serem considerados turbulentos, como alguns mestres de capoeira de Salvador. O pesquisador Eduardo Silva cita o caso de um soldado baiano, recrutado no momento em que a Bahia protestava contra o governo com slogans como “carne sem osso, farinha sem caroço e toucinho do grosso”[46].Dionísio Cerqueira também o citou em suas recordações de Guerra: “Era um crioulo alto e musculoso, gingando muito quando andava. Era muito limpo – fazia gosto ver a chapa do seu cinturão e os botões a reluzir. Gostava muito de cantar”[47].
Muitos escravos também foram substituir seus senhores, que haviam sido convocados para a guerra. Outros senhores até ofereciam seus escravos em jornais da época para que tomassem o lugar de brancos. Às vezes esses artigos eram publicados em comum acordo entre o escravo e o senhor. É claro que o escravo não tinha outra saída, já que na época essa era a única maneira para conseguir a liberdade. Então, o dono ficava com o dinheiro da venda e o escravo ganharia a carta de alforria caso voltasse vivo do campo de batalha. Um anúncio desse tipo foi publicado no jornal Diário da Bahia, em 14 de outubro de 1865, e anunciava:
Atenção. Quem precisa de uma pessoa para marchar para o sul em seu lugar, e quiser libertar um escravo robusto, de vinte anos, que deseja incorporar-se ao exército, declare por este jornal seu nome e morada onde possa ser procurado, e por preço cômodo achará quem lhe substitua nos contingentes destinados à guerra[48].
Outros negros que já eram libertos foram à guerra para servir ao Brasil como é o caso do próprio Rebouças, que foi prestar seus serviços de engenheiro no sul.
Taunay ainda fala uma outra vez nos voluntários do 17º batalhão, onde certamente deveria haver muitos negros. Nesse momento é possível desconfiar das intenções dos comandantes, quando colocam os voluntários na linha de frente para ter o primeiro contato com o inimigo. O exército brasileiro mandou o destacamento para negociar paz com os paraguaios. Mas ninguém sabia qual seria a reação dos inimigos. Eles poderiam ter atacado o batalhão de voluntários, que não teria chances de reagir já que estava sozinho à frente. Taunay sequer menciona essa possibilidade. Ele descreve o fato como uma atitude comum que tinha que ser tomada pelo comandante. O autor está mais preocupado em saber se os paraguaios iriam aceitar a rendição ou iriam preferir continuar a guerra. Mas essa atitude de sacrificar os negros nas batalhas chegou a ser questionada na época, contudo em outra guerra. A Guerra da Secessão nos Estados Unidos aconteceu num período próximo, entre 1861 e 1865. O general George Meade, um dos comandantes das tropas que atuaram na cidade de Petersburg, mudou os planos de ataque aos seus inimigos justamente porque previu que seria acusado de sacrificar os negros combatentes caso eles estivessem na linha de frente e o batalhão fosse massacrado. “Se nós colocássemos as tropas de cor na fronte e fracassássemos, seria dito, e com razão, que nós os estávamos empurrando para a morte porque não ligamos a mínima para eles”[49].Com a atitude do general vinte e quatro horas antes do ataque, a tropa composta por muitos negros foi a última a chegar para a luta.
André Rebouças ressalta uma especificidade de alguns dos negros nas expedições que acompanhou. O autor fala do Zuavos. Mas não explica quem são. Diz apenas que um voluntário ferido por uma bala havia sido levado ao vapor “Duque de Caxias”, transformado em hospital. Lá estavam servindo vinte e dois zuavos sob o comando do seu alferes Ângelo Benedicto Martyr. A explicação sobre quem foram os zuavos vem através de nota de Maria Odila da Silva, que também relata a impressão que o general Dionísio Cerqueira teve deles. Os zuavos eram voluntários da Bahia. Todos negros, inclusive seus oficiais[50].Mas o corpo dos zuavos foi dissolvido mais tarde pelo general Osório, que distribuiu os seus componentes pelos demais batalhões[51].Dionísio Cerqueira se ocupa em descrever os uniformes dos zuavos, que eram diferentes dos comumente usados pelo exército: “largas bombachas vermelhas presas por polainas que chegavam à curva da perna, jaqueta azul aberta com bordados de trança amarela, guarda-peito do mesmo pano, o pescoço limpo sem colares, nem gravata e um fez na cabeça”[52].Os zuavos são citados novamente por Rebouças quando redige uma lista com os nomes dos heróis do dia, entre eles muitos mortos e feridos. Rebouças, que diz ter feito essa lista de heróis à luz de palitos de fósforos acendidos sucessivamente pelo amigo capitão Tamborim, não discrimina os nomes dos soldados zuavos. Apenas escreve “Contingente de Zuavos”[53].
Os paraguaios caricaturavam os seus inimigos brasileiros pelo fato do exército aliado ser composto por vários negros. Rebouças registra a apreensão junto a um paraguaio de vinte e quatro quadras impressas com o título “A los cambai”. Cambai significava macaco e era como os paraguaios se referiam aos brasileiros. Periódicos paraguaios como o Cabichuy circulavam clandestinamente pelo acampamento aliado e traziam desenhos dos soldados e dos oficiais brasileiros representados como macacos[54].Para os paraguaios era uma tentativa de desqualificar os inimigos, assim como faziam os brasileiros quando os chamavam de primitivos. Rebouças e Taunay utilizam essa mesma expressão para se referirem aos paraguaios.
Entre outros momentos em que Taunay trata os inimigos de primitivos e os brasileiros de civilizados, está o episódio em que os paraguaios utilizam a tática de se atar à sela do cavalo para que seu corpo não fique com os aliados caso o soldado seja alvejado. Com o corpo amarrado à sua montaria, o soldado ferido ou morto seria levado de volta ao seu acampamento quando seu cavalo seguisse os demais na hora do exército se retirar da batalha. Isso quase sempre funcionava. Mas Taunay insistia em chamar a estratégia de selvagem:
... chegam alguns a tomar a precaução de amarrar na cintura a ponta de um laço que trazem sempre consigo, prendendo firmemente a outra extremidade no arção da sela; assim se caírem mortos ou gravemente feridos, seu cavalo, acompanhando os outros no retorno, os arrastará também, ainda que em pedaços; precaução selvagem, mas destituída de grandeza[55].
Rebouças consegue fazer uma mistura ainda maior. Ele chama os paraguaios de primitivos por agirem como índios e serem quase femininos.
Os Paraguayos tem costumes ainda primitivos; logo que desembarcarão na Ilha fizérão uma grande açuada batendo na bôca como os Índios. Quando se lhes perguntava, quem vem lá? Uns respondião com o seu metal de voz especial, quasi feminil, que logo os denunciava ‘son brasileros’, outros, suppondo talvez intimidar-nos, respondião “son los paraguayos que vem matar los cambays”[56].
Em outro momento o autor acredita estar levando a liberdade aos paraguaios. “Deos proteja e conduza os generosos redemptores do misero povo Paraguayo! Traga o Sol d’amanhã á esta mísera terra o mais precioso dos dons – a liberdade”[57].
Ambos os autores fizeram seus relatos numa época em que se relacionava os comportamentos e as pessoas com a natureza. Também por isso, Rebouças e Taunay tinham a atenção de descrever os aspectos e os fenômenos naturais dos lugares em que estiveram durante a guerra. Taunay já falava da intenção de observar a natureza quando resolveu partir para a área do conflito. Não estava interessado na carreira militar ou em combater os inimigos, mas em “viajar por sertões imperfeitamente conhecidos e mal explorados para descobrir um gênero novo de planta, pelo menos uma espécie ainda não estudada e classificá-la”[58].Apesar de mais tarde, em seus livro Memórias, tratar desses desejos como sonhos de mocidade em que havia bastante pedantismo, Taunay realmente presta muita atenção na natureza que encontra no Mato Grosso e no Paraguai e a descreve em A Retirada da Laguna. No meio dos relatos sobre os fatos da guerra, fala de um tipo de planta, descrevendo a forma, o aroma e as características científicas. É como se Taunay estivesse caminhando com a tropa e de repente se desligasse dos milhares de soldados para contemplar a natureza. Como no seguinte trecho: “A estrada larga contornava bosques magníficos, repletos de umbuzeiros cujas flores desabrochadas perfumavam o ar à distância, de pequis carregados de frutos e das inesgotáveis mangabeiras”[59].Em nota de rodapé, o autor explica a classificação científica da mangabeira: “Arbusto da família das apocináceas cujo fruto tem um gosto semelhante ao da maçã. Hancornia speciosa é o nome científico que lhe foi dado pelo botânico Gomes”[60].
Taunay se interessava em descrever também o que chamou de sertão. Não se trata da região seca encontrada atualmente, por exemplo, no nordeste brasileiro. Mas na maior parte das vezes o autor se referia à região do Pantanal de Mato Grosso, quase totalmente alagada durante um determinado período do ano. Para Taunay, sertão era a “região quase despovoada e inculta”[61],que ia de Uberaba até a fronteira com o Paraguai, abrangendo o sul de Goiás e Mato Grosso.
Essa natureza também poderia ser manipulada para desqualificar os inimigos. É só uma questão de olhar. Taunay não descreve o território paraguaio com a mesma admiração que tinha pelo que encontrou em solo brasileiro, embora não tivessem muita noção de onde acabava um país e começava o outro. Num trecho de A Retirada da Laguna, o autor observa que deixou a beleza da natureza brasileira:
Dos dois lados da coluna, para garantir-lhe o movimento, os atiradores que a flanqueavam cortavam o capim alto, pois a natureza da região mudara. Não havia mais a grama curta e fresca dos prados que recentemente atravessáramos. O solo estava coberto desta perigosa gramínea, da altura de um homem, chamada macega, de caule duro e arestas cortantes, que em várias partes do Paraguai tornam a marcha bastante penosa[62].
Já Rebouças viveu sua experiência na guerra sob outras condições naturais. Ele atuou em grandes rios como o Paraguai e o Paraná e em ilhas fluviais no sul do país. Além disso, Rebouças voltava o seu olhar para o céu. É como se Taunay percebesse o que se passava na terra, no mato e Rebouças olhasse para o céu, para as nuvens e para a lua, sempre apontada em seus relatos quando aparecia na noite. Acompanhando o seu Diário é possível perceber a mudança das estações, como as noites vão ficando mais frias e o vento mais cortante. Rebouças inicia o relato de cada dia falando das condições climáticas, da temperatura e das nuvens. As descrições chegam a soar familiares tamanha é a semelhança do clima do local da guerra com o de Florianópolis quando se trata da chuva fina e do vento sul gelado que limpa o céu. O relato do dia 04 de abril, uma quarta-feira, é um exemplo: “Grande temporal de Sul pelas trez da madrugada; manhã de grandes aguaceiros; limpou o tempo com brisa de Sul frio das trez da tarde em diante”[63].
“É preciso ter assistido, com a alma já quebrantada de tristeza, a estas terríveis crises da natureza para avaliar corretamente sua influência sobre o organismo humano”[64].Nem sempre a natureza é relatada como moldura para os acontecimentos da guerra. Ela às vezes aparece como mais um fator de sofrimento para a coluna onde participou Taunay. Nesse trecho, o autor fala de uma tormenta que atingiu a expedição no final da retirada, quando as pessoas já não tinham mais forças devido à longa caminhada, à fome e ao cólera. A doença acompanha a expedição durante todo o caminho. Na ida foi atacada por febres, que mataram soldados e animais. O exército, inclusive a cavalaria, teve que continuar a pretensa invasão à pé. Durante a retirada, o cólera fez diminuir progressivamente o número de membros da coluna. Das 1.680 pessoas que entraram no Paraguai, em abril de 1867, apenas setecentos retornaram com vida[65].Muitos doentes ficaram no caminho ainda vivos, largados pelos companheiros por ordem dos chefes da expedição. Taunay descreve a dificuldade para se tomar a decisão, acatada no final por acreditarem que os doentes não sobreviveriam de qualquer forma. Mais adiante o autor relata a chegada de um dos doentes largados para morrer, que resistiu ao cólera e continuou no rastro da expedição até alcançá-la.
A causa da doença é desconhecida e mais uma vez a natureza aparece como uma possibilidade em meio a tantas outras.
A que deveríamos atribuir essa irrupção da cólera, ou melhor, a que não podíamos atribuí-la? Seria a carne estragada que éramos obrigados a ingerir, ou a fome que padecíamos quando o nojo era maior que a necessidade? Seria o calor insuportável dos incêndios, que fazia nosso sangue fervilhar, ou a intoxicação provocada por todas as substâncias vegetais que devorávamos: hastes tenras, frutas verdes ou podres? Ou, finalmente, a insalubridade do ar, viciados pelas águas estagnadas das lagoas e dos brejos, numerosos na região? Supunham alguns que o mal fora trazido pelo próprio inimigo[66].
Em Rebouças, a doença não é um fato coletivo. A maior parte dos casos que chegavam aos hospitais improvisados montados em vapores era de feridos à bala. Soldados que perderam dedos, pernas, mãos em algum ataque inimigo ou por falha do armamento brasileiro. São descritos outros casos individuais em que houve a incidência de doenças diferentes. O próprio Rebouças foi hospitalizado duas vezes no curto período analisado neste artigo em que esteve na guerra. Primeiro é internado com pneumonia. Durante vários dias descreve seu estado de saúde e os remédios que ingere para tratar a doença. “Fiz uso durante a noite como expectorante da tintura de benjoim, uma colher de chá em uma xícara de chá de infusão de folhas de laranja, que me receitou e me preparou o meu bom amigo Dr. Luiz Alvares”[67].Da segunda vez Rebouças pensa que pode estar novamente com pneumonia, mas é hospitalizado com varíola. “Pela madrugada percebi com o maior espanto que sobre o nariz apparecia uma erupção de pelle, que ao depois se reconhecêo serem bexigas!”[68]. As erupções tomaram todo o seu corpo, aparecendo mais intensamente nas mãos, nos pés e no rosto. Quando cederam um pouco e Rebouças pode novamente escrever, enviou uma carta a seu pai dizendo que voltaria para o Rio de Janeiro. Diz que já não pode mais continuar na vida miserável de uma barraca. Ao escrever a carta até se espanta que a doença o tenha feito modificar sua própria letra. Rebouças volta ao Rio, trabalha como engenheiro e atua em movimentos como o abolicionista. Taunay volta da também sofrida experiência em Mato Grosso, se torna escritor e mais tarde político. Ambos apoiam a monarquia e defendem D. Pedro II.
[1] Cf. Maria Alice Rezende de CARVALHO, 1999 apud Marco Antônio VILLA, 1999.
[2]Id.
[3] Marco Aurélio NOGUEIRA, 1999.
[4] Cf. Maria Alice Rezende de Carvalho, 1999 apud Marco Aurélio NOGUEIRA, 1999.
[5] Marco Aurélio NOGUEIRA, 1999.
[6] TAUNAY, 1997 [1871].
[7] Id. p. 37.
[8] REBOUÇAS, 1973 [1866] (foi mantida a ortografia originalmente utilizada pelo autor).
[9] TAUNAY, 1960 [1949].
[10] Id.
[11] Id.
[12] TAUNAY, 1997, p. 52.
[13] Id. p. 53.
[14] Id. p. 55.
[15] Id. p. 56
[16] Cf. TAUNAY, 1960 [1949] apud Sérgio MEDEIROS, 1997.
[17] REBOUÇAS, 1973 [1866].
[18] Id. p. 52.
[19] Id. p. 53.
[20] Id. p. 52.
[21] Id. p. 74.
[22] Id. p. 58.
[23] Id. p. 75.
[24] Id. p. 105.
[25] Maria Odila da Silva DIAS, 1973.
[26] Id.
[27] Cf. Maria Odila da Silva DIAS, 1973. p. 17 apud REBOUÇAS, 1973 [1866].
[28] TAUNAY, 1960 [1949], p. 84.
[29] Cf. TAUNAY, 1960 [1949] apud MEDEIROS, 1997.
[30] TAUNAY, 1960 [1949].
[31] Id.
[32] Id.
[33] Id.
[34] Id.
[35] Id.
[36] Cf. TAUNAY, 1960 [1949] apud Sérgio MEDEIROS, 1997.
[37] REBOUÇAS, 1973 [1866], p. 125.
[38] Id. p. 126
[39] TAUNAY, 1997 [1871], p. 148.
[40] REBOUÇAS, 1973 [1866], p. 93
[41] Cf. José Luiz RODRIGUES, s.d. apud Maria Odila da Silva DIAS, 1973.
[42] TAUNAY, 1997 [1871], p. 186.
[43] Id. p. 186-187.
[44] Id. p. 224
[45] SILVA, 1995.
[46] Id.
[47] Cf. CERQUEIRA, 1980 apud SILVA, 1995, p. 71.
[48] SILVA, 1995, p.71.
[49] MEADE, 1999.
[50] Maria Odila da Silva DIAS, 1973, p. 71.
[51] Cf. OSÓRIO apud Maria Odila da Silva DIAS, 1973.
[52] Cf. CERQUEIRA apud Maria Odila da Silva DIAS, 1973.
[53] REBOUÇAS, 1973 [1866].
[54] SCWARCZ, 1998, p. 307.
[55] TAUNAY, 1997 [1871], p. 147.
[56] REBOUAS, 1973 [1866], p. 85.
[57] Id. p. 104.
[58] TAUNAY, 1960 [1949] apud Sérgio MEDEIROS, 1997.
[59] TAUNAY, 1997 [1871], p. 47.
[60] Id. Ibid.
[61] TAUNAY, 1960 [1949].
[62] TAUNAY, 1997 [1871], p. 97.
[63] REBOUÇAS, 1973 [1866], p. 59.
[64] TAUNAY, 1997 [1871], p. 167.
[65] TAUNAY, 1997 [1871].
[66] Id. p. 191.
[67] REBOUÇAS, 1973 [1866], p. 138.
[68] Id. p. 160.